O que é trauma e como identificá-lo? 6


Quando falamos em traumas, não falamos apenas daqueles óbvios, tais como desastres naturais, sequestros, estupros e guerras, mas também daquelas experiências dolorosas que nos causaram constrangimento e dor emocional ao longo de nossas vidas. Críticas constantes de nossos pais ou pessoas significativas ao longo de nosso desenvolvimento, bullying na escola, separações, traições de amigos, são alguns exemplos de eventos que podem nos traumatizar e causar várias consequências ruins, inclusive paralisantes, para nós e para os que nos cercam. O trauma ocorre em função de uma vivência de perigo (real ou imaginário) que não conseguimos resolver adequadamente, fazendo com que acreditemos em mentiras sobre nós mesmos. Esse perigo não necessariamente é o de ser morto fisicamente, mas refere-se também a qualquer tipo de ferimento psíquico ou emocional.

Há vários sinais que indicam um trauma emocional. A passagem por experiências trágicas, como a perda de pessoas queridas ou o risco de morte, não necessariamente significam que a pessoa venha a desenvolver um trauma. Um bom indício de que um trauma ocorreu é a impressão de que a experiência passada insiste em permanecer no presente, reluta em virar passado. Basta a pessoa lembrar-se do evento perturbador, mesmo sem querer, para que uma emoção forte, pensamentos negativos e imagens nítidas se intensifiquem. Estudos realizados com o auxílio de tomografias de alta precisão sugerem que a experiência traumática é tão forte que altera o funcionamento cerebral. Quando o cérebro é submetido a estresse crônico, o indivíduo perde em qualidade de vida. Daí a importância de buscar ajuda.

Alguns outros sintomas da existência de traumas podem ser:

  • Pesadelos ou reações desproporcionais diante de pequenas coisas que lembrem a experiência;
  • Choro fácil e imotivado;
  • Transtornos alimentares inexplicáveis;
  • Evitação persistente de pensamentos, conversas, locais ou pessoas que façam lembrar o evento;
  • Dificuldades para dormir, explosões de fúria, dificuldade de concentração, hiper-vigilância constante e prontidão para ameaças.

A memória traumática é diferente da comum. Ao ser perguntada sobre o que comeu na semana anterior, uma pessoa provavelmente responderia que não tem a menor ideia, visto que a memória havia se dispersado no passado. Contudo, se perguntada sobre uma memória traumática, a mesma pessoa lembraria de muitos detalhes, pois essa guarda detalhes visuais, às vezes também auditivos, físicos e até olfativos e fica registrada e congelada no hemisfério direito do cérebro, responsável por gerir nossas emoções. Porém, é no hemisfério esquerdo, responsável por nossa racionalidade, que estão as ferramentas que nos permitem dar novo significado à experiência e deixá-la no passado.

Assim, quando trabalhamos com EMDR, promovemos o “diálogo” e a “metabolização” (reprocessamento) do trauma, por meio da focalização de elementos da memória traumática e da estimulação bilateral (visual, auditiva ou tátil). Em pouco tempo, a pessoa tem uma maior sensação de distanciamento da perturbação traumática e espontaneamente começa a avaliar a experiência a partir de uma perspectiva mais otimista. A lembrança perde, assim, a capacidade de mobilizar o indivíduo, o que facilita o resgate da lembrança de bons momentos. A partir dessas conquistas, a pessoa consegue ter um novo entendimento sobre os acontecimentos, superar sentimentos de culpa, se perceber de forma mais clara, planejar melhor o futuro e desejar coisas boas para si mesma.

 


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6 conversas em “O que é trauma e como identificá-lo?

  • Roberta

    Muito bom este artigo, Ignez Limeira! Poucos percebem a importância do trabalho terapêutico como fator de ajuda na vida do indivíduo para lidar com as angústias provocadas pela memória traumática.

    • ignezlimeira Autor do post

      Que bom que gostou, Roberta! As memórias traumáticas causam grande estrago e as pessoas muitas vezes nem percebem que o que vivem hoje é fruto de algum trauma do passado. Algumas vezes isso acontece por não ter consciência da relação de uma coisa com a outra, e outras vezes por nem se dar conta de que sofreu um trauma. Trauma é visto por muita gente como algo gravíssimo (estupros, etc), mas como expliquei, coisas não tão sérias de nosso cotidiano podem causar grandes traumas… Ao atender pessoas com EMDR, tenho visto como o cérebro nos leva a caminhos de cura, que nem a própria pessoa imaginaria.

      Agradeço seu comentário e interesse no assunto.

      Abraços,

  • Simone Villardi

    Ignez, eu gostei muito deste artigo, pois ele traz muita clareza a respeito das possíveis causas e efeitos dos traumas.
    O tratamento com EMDR, que estou fazendo com você, está me proporcionando ter meus traumas tratados e consequentemente percebo que estou amadurecendo emocionalmente.
    Obrigada, Ignez! Você é uma pessoa e profissional admirável!

    • ignezlimeira Autor do post

      Obrigada, Simone! Muito bom saber que vc achou o artigo esclarecedor e que a psicoterapia com EMDR está ajudando vc! Isso é muito gratificante pra mim.
      Beijos